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OAB 1° e 2° fase

Coragem para viver e aprovar

(Re)encontrando a coragem na travessia da aprovação, sem abandonar a si mesmo.

Última atualização em 29/05/2026
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​Enquanto escrevo este texto, tenho pensado muito sobre a experiência de se preparar para o exame da OAB. Há tantas nuances atravessando esse processo que, por vezes, torna-se difícil até organizá-las em palavras. Afinal, não se trata de uma tarefa simples equilibrar os pratos entre estudos, relacionamentos interpessoais e a constante (re)descoberta de afetos (e desafetos) que permaneceram adormecidos por muito tempo, mas que agora emergem à superfície.


Muitas vezes, a aprovação é concebida apenas enquanto um desafio técnico. Cria-se uma espécie de linha imaginária de sucessão de eventos: estudar suficientemente, realizar a prova e, consequentemente, alcançar o resultado esperado. Contudo, a experiência de muitos estudantes demonstra que a realidade raramente se organiza de maneira tão linear.
Esta lógica deposita sobre os estudos o peso de fator único para consolidar a aprovação. E talvez seja justamente aí que parte do sofrimento se intensifique. Não porque o estudo não seja indispensável (ele é), mas porque existem outros atravessamentos que também participam dessa experiência. O cansaço físico e emocional. A desatenção às próprias necessidades afetivas e sociais. As expectativas excessivas sobre o futuro. As comparações constantes. O medo silencioso de não corresponder ao que se espera de si. Tudo isso ocupa espaço na subjetividade de quem estuda.


Por vezes, constrói-se um imaginário coletivo de que os outros estudantes parecem mais preparados emocionalmente, mais organizados ou menos afetados pelas dificuldades da preparação. Como se houvesse pessoas naturalmente mais resistentes ao desconforto. Como se fosse possível (e até preferível) existir enquanto uma espécie de consciência artificial, ilesa das angústias, inseguranças e vulnerabilidades que acompanham experiências de alta exigência. Mas não somos ilesos ao desconforto. E talvez nem devêssemos ser.


O desconforto também revela algo sobre nós. Ele pode revelar limites, fragilidades, desejos, medos e necessidades que frequentemente permanecem esquecidos na pressa de produzir resultados. Ignorá-lo não faz com que desapareça. Apenas o desloca para outros espaços: o corpo, a irritabilidade, a procrastinação, a exaustão ou a sensação persistente de insuficiência. Por isso, tenho concebido a ideia de que o edital do exame talvez careça de incluir um item fundamental para aqueles que irão preparar-se: coragem.


Coragem porque a única garantia real que a preparação (assim como a própria prova) oferece ao estudante é a de que está sendo tentado o melhor que se pode dentro das possibilidades existentes naquele momento. A aprovação não é garantida para ninguém. E reconhecer isso talvez seja desconfortável, mas necessário.


Podemos utilizar estratégias, estatísticas, simulados e evidências para estimar a probabilidade de um bom desempenho. Ainda assim, permanece um elemento impossível de controlar completamente. Existe sempre uma dimensão de incerteza. E é justamente diante dessa ausência de garantias absolutas que a coragem se torna indispensável.


O salto de fé continua sendo uma responsabilidade pessoal. Especialmente quando a preparação precisa coexistir com tantas outras prioridades igualmente vitais: trabalho, relações afetivas, responsabilidades familiares, saúde mental, sobrevivência emocional e necessidade de pertencimento. Afinal, negligenciar continuamente essas dimensões também produz efeitos sobre a subjetividade e, consequentemente, sobre a própria capacidade de sustentar o processo de preparação.


Talvez a coragem necessária para atravessar a OAB não esteja apenas na persistência diante das horas de estudo, mas também na disposição de permanecer humano enquanto se enfrenta tudo aquilo que essa travessia desperta. Talvez a grande ferramenta de enfrentamento para esse desafio (assim como para tantos outros na vida) seja justamente a coragem, e não uma tentativa de anestesia artificial diante dos próprios desconfortos. Porque o problema não está centrado em experienciar o desconforto, mas em não elaborar aquilo que ele comunica sobre você mesmo.


Torço para que, ao final dessa travessia rumo à aprovação, não seja apenas o resultado no exame a sua conquista, mas também os aprendizados construídos ao longo da jornada. Aquilo que você conseguiu compreender sobre si. Sobre suas expectativas, suas angústias, seus sonhos e sua identidade. Indiscutivelmente, o exame da OAB representa um marco profissional na vida de muitas pessoas. Mas, para aqueles que atravessam esse processo com um olhar mais atento para si mesmos, ele também pode tornar-se uma oportunidade de conexão com a própria essência humana.


Amadurecer e crescer (ainda que não mais em estatura) não significa superar todos os desafios em tempo recorde, com excelência performática e absoluta ausência de medo. Significa permitir-se humano e vulnerável, ao mesmo tempo em que se assume o compromisso de compreender a própria subjetividade e ampliar os recursos internos para sustentar a própria existência com mais consciência e paz consigo mesmo. Talvez seja justamente aí que resida a verdadeira coragem: continuar construindo caminhos possíveis sem abandonar a si mesmo durante a travessia.


Um gélido (faz frio aqui no RS) abraço do seu psicólogo Ceisquer, Vitor Mueller. 💙​

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