Descansar parece errado?
Quando o esforço já não sustenta e o estudo perde o propósito.
Você já leu nas redes sociais a frase: “nenhuma experiência é individual”? Embora caricata, no contexto dos estudantes para o exame da OAB ela pode apontar para um fenômeno quase universal: ler uma dúzia de palavras e não lembrar sequer da primeira. Apesar de frequentemente usada em tom cômico, aqui a frase denuncia um problema preocupante e carrega um peso invisível para quem vivencia esses episódios. Trata-se da iminência — ou da presença — do esgotamento.
Falta foco, disciplina, organização. Sobram culpa, constrangimento e frustração. Surge a sensação de que poderia mais, de que deveria mais. Mas o que fazer quando já não há de onde extrair disposição? Muitos tentam entender o que há de errado consigo, já que não conseguem mais render no ritmo esperado. Nesses momentos, a comparação com um ideal cultural de performance entra em choque com o que é, de fato, possível. E aqui falta uma comparação mais justa: você não é o único a passar por isso. Talvez esse seja hoje o comum, não a exceção. Talvez o problema não seja apenas você, mas a forma como pensamos desempenho e cansaço.
A autocobrança é a irmã mais velha do esgotamento. Veio antes, nascida na cultura, e empurra o sujeito, de forma sutil, até o limite — muitas vezes sem que ele perceba. O filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve essa lógica ao retratar uma sociedade que hipervaloriza o desempenho, a produtividade e a superação individual. Até certo ponto, essas características são relevantes para você, estudante da OAB. No entanto, quando se transformam em identidade e em um parâmetro rígido de valor, a linha do limite se torna invisível — e, com ela, a capacidade de avaliar de forma crítica e realista o próprio contexto. De repente, o esgotamento já está instalado. O descanso passa a parecer banal, e o limite, ilegítimo.
A partir daí, o estudo perde alguns de seus princípios fundamentais. A qualidade cede lugar à quantidade, e o processo se transforma mais em corrida do que em jornada. Perdem-se de vista os propósitos que trouxeram você até aqui: ascensão profissional, autonomia financeira, a possibilidade de advogar em prol da justiça, entre tantos outros. No lugar, surgem dificuldade de concentração, irritabilidade e cansaço físico. O sono deixa de ser reparador, e o conteúdo já não se fixa. Tudo isso pode alimentar ainda mais a autocobrança — quando, na verdade, o necessário seria o oposto: pausar e reconhecer.
Pausar pode ser algo simples: um alongamento entre blocos de estudo, um momento de carinho com o pet quando o rendimento cai, ou pegar mais leve após um dia difícil. Na teoria, parece fácil — e, em certa medida, na prática também. Mas há algo essencial para que isso se torne possível: reaprender a lidar com desempenho e autocuidado de forma conjunta. Sem autocuidado, sequer se alcança o desempenho desejado.
Escutar os próprios limites torna-se indispensável para chegar onde se deseja — e isso envolve cultivar autocompaixão. Reconhecer suas virtudes, seus esforços, as horas de estudo, os simulados realizados até aqui. Tudo isso tem valor. E, se você realmente valoriza o que construiu, entenderá que o descanso não é perda de tempo, mas condição para consolidar e potencializar o aprendizado. Respeitar o cansaço é parte do amadurecimento — e, consequentemente, do crescimento.
Busque construir um ritmo que faça sentido para você, que seja possível sustentar. O desempenho pode — e deve — ser desenvolvido, mas o corpo merece a mesma atenção. A aprovação importa, mas o caminho até ela também. Afinal, serão seu corpo e sua mente que o levarão até lá. Cuidar de ambos com equilíbrio e consciência permitirá não apenas chegar, mas também celebrar essa conquista. O desconforto do cansaço não precisa ser interpretado como falha pessoal, mas como um convite para reavaliar e ajustar o seu ritmo.
Um descansante abraço do psicólogo que vos escreve, Vitor Mueller.
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